Não sei o que escrever sobre mim mesmo,
A não ser que corro ao vento.
Eu sou o Vento correndo em uma praia deserta.
Tornando-me ungüento de minhas próprias feridas.
Eis que sou meio eu: meio tosco,
meio mimo, meio asco,
Meio asno, num mundo tão diferente.
Quem sou eu?
Já te digo, meu amigo, sou andarilho, sou brisa e tempestade,
sou eu o Vento.
Sou mesmo eu, sou mesmo teu, sou mesmo o quê?
Vedes o que é minha vida:
maravilha, encanto, pranto.
Vedes minha dor,
pungente, carente, pulsante, sempre dor?
Vejas com os olhos de minha amada!
Vedes que sou forte?
Como podes ver isso, se sou só fraqueza,
se sou só desalento, se sou só?
Quero-te ao meu lado!
Quero-te, porém, não sou eu,
sou apenas pranto, embora queime por dentro.
Quanto sou eu? Apenas pó?
Quanto sou só?
Cala-me minha amada, pois sou só palavras:
impávidas, cálidas, sou só eu em palavras.
Palavras em muitas cores, palavras em flores de profunda impressão.
Verde, azul, vermelho vivo.
Vivo sem rumo, prumo, sou só eu só.
Queres saber quanto sou?
Sou a medida de mim mesmo, sou da idade da razão.
Sou eu, calado, pasmo,
Ledo engasgo, ledo impávido,
frente a mim mesmo.
Leão que ruge para a dor.
Sou cor, sou pó, sou antes, sou depois, sou só, sou junto.
Sou fungo, crescendo a esmo, sou eu mesmo.
Eu sou assim: eu mesmo querendo ser o que não sei se posso.
Então, Creta é minha terra, quimera minha vida,
sonhos minha seara.
Sou teu filho pródigo: abraça-me, acaricia-me, preciso de ti,
preciso do mar!
O que há que não posso perscrutar?
O que há que não posso tocar?
Eis o que há: sou eu, meu próprio eu.
Não, sou teu, meu próprio anti-eu!
Quer-me ao teu lado?
Nunca me terás, tendes apenas sombras e pó.
Sou só sombras!
Apenas aquilo que meço
E peço a ti que me dê valor.
Ah, mas valor não o tenho, pois há muito mo perdi.
Quero que me meças, com fita métrica, com fino trato,
com tato, com ósculo.
Com vigor, quero que me meças com amor, com paixão, com ondas,
com mar, com luar, com querer.
Eis o que sou: querer, frio, quente, morno, ardente, quieto, louco.
Mas não sou tão pouco, sou muitos.
Sou leão, cão, pão, quinhão, terno, longe, seu, meu, amor,
mas ainda assim, sou apenas eu.
W. Wagner
(02/01/2006 – 06/01/2006)