Eu Canto

Entrem por sua livre e espontânea vontade! W. Wagner

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PALAVRAS
Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.

A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro

Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.

(tradução de Ana Cristina César)

Sylvia Plath

Minha poesia

Ó minha poesia

Abro as mãos para que voes ao céu

Perco-te então de vista, no azul infinito

Voa livre, voa fagueira, voa menina

Passeia por estes campos floridos de nuvens

Faz teu ninho no Sol e colhe teu alimento da Lua

Vai, voa, minha poesia

W. Wagner

(28/12/2005)

Sino do Otávio Bonfim

Havia em minha infância
Uma igreja de fronte a Praça do Otávio Bonfim
Amarela e branca a igreja, devotada a Santo Antônio
Era forte e acolhedor seu sino
Quando aos fiéis chamava
Em rígidos horários eu ouvia sua melodia simples
Em alegres horas de minha vida eu ouvia sua melodia simples
Em incontáveis sonhos eu ouvia sua poesia simples
Agora seu som ecoa apenas em minhas lembranças
A igreja, a praça, os fiéis, eu menino
Tudo isso ainda permanece no toque do sino do Otávio Bonfim

Para onde foi a utopia

Em minha adolescência fui membro de um centro acadêmico

Passava de sala em sala conversando com meus colegas

Exortando-os para que soubessem sobre as políticas da vida

Conclamando-os para assumir as rédeas da justiça

Inflamando-os com o combustível da indignação

 

Em minha adolescência fui membro de um centro acadêmico

Passava de sala em sala conversando com meus colegas

Agradava-me gritar palavras-de-ordem

Entusiasmava-me o calor das discussões políticas apaixonadas

Impressionava-me com as utopias vislumbradas

 

Em minha adolescência fui membro de um centro acadêmico

Passava de sala em sala conversando com meus colegas

Certo dia nós abraçamos nossa escola, como forma de protesto

Estávamos todos unidos pelas mãos ao redor do prédio da escola

Gritávamos todos, uníssonos, palavras carregadas de repúdio e paixão

 

Em minha adolescência fui membro de um centro acadêmico

Passava de sala em sala conversando com meus colegas

Porém já não existe a sala ou os colegas

Porém não existem mais as discussões, os abraços, nem os protestos

Para onde foi a utopia que em minha adolescência a um centro acadêmico me prendia?

 

Puedo escribir los versos mas tristes esta noche
Pablo Neruda

Toca e foge

Bate coração meu

Bate cada surdo minuto

Existência minha não quero

Passar sem ver- te a cada instante

Bate, alforria-me desta dor

Pois cada batida sem ti, faz-me sofrer

Toca tua penosa música, ó coração

E espera que teu som cruze a imensidão

Que separa os braços de minha amada dos meus

Toca e foge para junto dela

Foge, foge, mas não te esqueces

De me levar junto contigo

Bate, foge, leva-me

W. Wagner

(30/10/05)

Os olhos de Dada

Em minha puberdade eu tive um cão

Seu nome era Indiamin Dada

Sem raça definida era meu cão

Quase nenhuma beleza tinha Indiamin Dada

Seus olhos laranja fitavam-me sempre leais

Seu latido amigo sempre me alegrava

Sua ferocidade que aos outros assustava

Do meu cão para mim nunca era vertida

Sua feiúra para mim era encanto

Sua graça para mim era a lealdade

Seu latido para mim era só doçura

Nunca olvidarei de ti estimado cão

Pois tuas lembranças a mim são caras

E parte de mim contigo estará sempre

W. Wagner

Para teu umbigo

O teu umbigo,

Capital de meu desejo,

          [Obrigado Quintana por este verso e pelo mote!]

Depositário de meus beijos,

Encontra-se a meio caminho

Do teu colo tão acolhedor

Em que nas noites de outrora, cansado,

Sonhos de criança eu tive

Está também a meio caminho

De tuas torneadas coxas

Ai, tuas coxas! Que em noites insones

Deram-me tanto prazer

Eis então a importância de teu umbigo,

Meu amor:

Centro de todos os sonhos e desejos

W. Wagner

Faina vivência

Ó Musas por que mo destes
Placebo e não medela
Sentenças desprovidas de graça
E não poesia corrente e inspirada

Ó Musas por que sedes ingratas
Com este poeta que da pena não faz outra                     cousa
A não ser glosar esforçado
A todo mote que a ele é dado

Pífia sorte presenteias apenas
Com esforços vãos e noites insones,
A este escravo que nada mais deseja
A não ser um fugaz momento de inspiração

Ó águia de brilhante plumagem
Levas a Zeus minha súplica
E pedes por mim fugidio brilho
Para iluminar a noite que encobre minhas                     palavras

W.Wagner

Pobre poeta

A rima não vem

A música encara-me com desdém

Ai, pífio poeta sou

Pois êufona melodia não consigo entoar

Nestas pobres linhas que estou a rabiscar

W. Wagner

Sou eu

Não sei o que escrever sobre mim mesmo,

A não ser que corro ao vento.

Eu sou o Vento correndo em uma praia deserta.

Tornando-me ungüento de minhas próprias feridas.

Eis que sou meio eu: meio tosco,

       meio mimo, meio asco,

Meio asno, num mundo tão diferente.

Quem sou eu?

Já te digo, meu amigo, sou andarilho, sou brisa e tempestade,

       sou eu o Vento.

Sou mesmo eu, sou mesmo teu, sou mesmo o quê?

Vedes o que é minha vida:

       maravilha, encanto, pranto.

Vedes minha dor,

       pungente, carente, pulsante, sempre dor?

Vejas com os olhos de minha amada!

Vedes que sou forte?

Como podes ver isso, se sou só fraqueza,

       se sou só desalento, se sou só?

Quero-te ao meu lado!

Quero-te, porém, não sou eu,

       sou apenas pranto, embora queime por dentro.

Quanto sou eu? Apenas pó?

Quanto sou só?

Cala-me minha amada, pois sou só palavras:

       impávidas, cálidas, sou só eu em palavras.

Palavras em muitas cores, palavras em flores de profunda impressão.

Verde, azul, vermelho vivo.

Vivo sem rumo, prumo, sou só eu só.

Queres saber quanto sou?

Sou a medida de mim mesmo, sou da idade da razão.

Sou eu, calado, pasmo,

Ledo engasgo, ledo impávido,

       frente a mim mesmo.

Leão que ruge para a dor.

Sou cor, sou pó, sou antes, sou depois, sou só, sou junto.

Sou fungo, crescendo a esmo, sou eu mesmo.

Eu sou assim: eu mesmo querendo ser o que não sei se posso.

Então, Creta é minha terra, quimera minha vida,

       sonhos minha seara.

Sou teu filho pródigo: abraça-me, acaricia-me, preciso de ti,

       preciso do mar!

O que há que não posso perscrutar?

O que há que não posso tocar?

Eis o que há: sou eu, meu próprio eu.

Não, sou teu, meu próprio anti-eu!

Quer-me ao teu lado?

Nunca me terás, tendes apenas sombras e pó.

Sou só sombras!

Apenas aquilo que meço

E peço a ti que me dê valor.

Ah, mas valor não o tenho, pois há muito mo perdi.

Quero que me meças, com fita métrica, com fino trato,

       com tato, com ósculo.

Com vigor, quero que me meças com amor, com paixão, com ondas,

       com mar, com luar, com querer.

Eis o que sou: querer, frio, quente, morno, ardente, quieto, louco.

Mas não sou tão pouco, sou muitos.

Sou leão, cão, pão, quinhão, terno, longe, seu, meu, amor,

       mas ainda assim, sou apenas eu.

W. Wagner (02/01/2006 – 06/01/2006)

Minha poesia

Ó minha poesia

Abro as mãos para que voes ao céu

Perco-te então de vista, no azul infinito

Voas livre, voas fagueira, voas menina

Passeia por estes campos floridos de nuvens

Faz teu ninho no Sol e colhe teu alimento da Lua

Vai, voa, minha poesia

W.Wagner (28/12/2005)

Agonia

Esta sede que sinto, seca meus sentimentos,

Racha minha língua, já não sei mais falar!

Fende minha alma, sou metade de mim.


O que é isso que sinto,

Que se apodera de mim furioso,

Que oprime meu peito de remorso,

Que atinge meu coração com fel,

Que arrasta meu corpo pelas ruas, vazio e perdido?


O que é isso que em mim maltrata e dói:

Que afasta meu sorriso e não me deixa chorar,

Que me silencia quando quero gritar,

Que me fragiliza e me faz penar,

Que é concreto, mas não se pode tocar,

Que dilacera e não se pode afastar?


O que é isso que carrego?

Parece um caminho aonde nunca se pode chegar,

Parece um destino que nos furta olhar,

Parece uma boca que nunca podemos beijar,

Parece um sorriso de que fenece em lembrar.

Se sinto, carrego e me maltrata a alma!

Por que não corto fora qual parte gangrenada?

Talvez porque assim agindo, não saiba com certeza

Se o que sou está na parte que fica,

       Ou na que atiro ao longe.


W.Wagner (09/02/2006)

Poeta sem inspiração

Malogrado intento encerro agora,

Pois nesta noite insone em que procurei alento

Na morada das Musas, só me escutou o vento.

As belas palavras não tiveram assento

Em minhas toscas rimas,

Em meus torpes sonetos,

Nada mais tenho nestas horas,

Além da dilacerante dor que me esquarteja a alma,

Por ser poeta e não conseguir escrever poesia.

Ai danada sina!

Ai deserto atroz!

Vou dormir e sonhar com a beleza das palavras,

Para acordar e descobrir que tudo não fora pesadelo:

Que me tornei o poeta que desejara ser,

Pois as palavras me são fiéis qual canino companheiro

Que ao sinalizar do dono logo vem faceiro.

Para dar-me autêntico desvelo,

Ó Poesia, te imploro

Faz-me teu companheiro,

Põe em minhas mãos a rima,

Extravasas em papel meus tormentos.

W.Wagner

Poema alegre

Minha bela pediu-me que improvisasse

De arrebate um poema alegre, vibrante

Posto este mote,

Cá estou eu com minha glosa

Linda minha, teu sorriso é a fonte de minha alegria

Feliz sempre estarei

Se em teus braços amor sentir

Se em teus beijos, meu amor se deliciar

Rosa banhada pela luz do luar

Noite estrelada em uma praia deserta

Só tu és minha rosa e minha estrela

Música da Lira de Apolo

Musa de minha alegria perene

Quero te ofertar estes pálidos versos

De alegria, amor e beleza

Para que em teu coração os guardes

E espante de ti toda tristeza

W. Wagner